Via Láctea

No mundo nascem anualmente 20 milhões de crianças prematuras com baixo peso, destes, 1/3 morrem antes de completar o primeiro ano de vida. As últimas informações publicadas pelo UNICEF, grande parte da mortalidade infantil no Brasil encontra-se na faixa de zero a um ano de idade. Em uma população de 1000 que nascem com vida,37 morrem se completar o primeiro ano de vida e ainda 23 tem registro de óbito no primeiro mês de vida. Cuiabá não se encontra fora dessa realidade, e o prematuro, entre as famílias carentes assistidas pelo SUS, contribui significativamente para a sustentação dessa hipótese.

Outro problema, por sinal muito grave, é miséria e a ignorância no quadro de saúde deste Estado, em especial Cuiabá é o abandono precoce, por parte das mães, que abandonam o aleitamento materno precocemente o que acontece na maioria das vezes por falta de orientação.

A nossa Capital ocupa o vergonhoso último lugar no ranking das Capitais do Brasil, quanto ao número médio de dias de amamentação, sendo este pouco mais de seis dias em média.

O Projeto Via Láctea , fundado em dezembro de 2001, em parceria com a UTI Neonatal do Hospital Santa Helena, tem como finalidade mudar radicalmente esse quadro, trata-se de uma organização não governamental (ONG),sem fins lucrativos que tem como principal objetivo incentivar o Aleitamento Materno, focalizando pessoas de grande sensibilidade para as causas sociais e que estejam sempre dispostas a se doarem em benefício do mais carente, que então não o fizeram ainda apenas por falta de oportunidades.

O Projeto, visa ainda expandir-se para todos os municípios do Estado de Mato Grosso e, quiçá, para todo o Brasil, esperando obter resultados significativos, voltados para uma política social, que possibilite uma redução expressiva no índice de mortalidade infantil no Estado.

O alimento leite humano está presente desde o surgimento da raça humana, porém é ainda incompletamente conhecido nas suas várias especificidades, o que o mantém como objeto de pesquisa. Os povos da Babilônia (2500 AC) e do Egito (1500 AC) tinham por norma amamentar as suas crianças por um período aproximado de 2 a 3 anos, porém, já nessa época, havia as amas de leite (VINAGRE, 2001). No entanto, a partir de1800, o número de crianças encaminhadas às amas através da Direção Mundial das Amas-de-leite declinou substancialmente. As amas-de-leite, no entanto, ?simulavam ser boas mães? e, visando a conservar sua remuneração, apropriavam-se das crianças, estimulando-as a permanecer a maior parte do tempo com elas. O sistema de amas-de-leite prosperou até fins do século XIX (MAGALHAES, TAVARES; 2005).

Em 1911 foi obtido o leite em pó, iniciando a era do aleitamento artificial.

A industrialização, a urbanização, o trabalho externo da mulher, a redução da importância social da maternidade e a descoberta das fórmulas de leite em pó foram os principais responsáveis pela diminuição do aleitamento materno no século 20, com repercussões desastrosas para a saúde das crianças e, também, para as mulheres (DINIZ, VAZ; 2001).

No contexto histórico cultural do Brasil, as mães indígenas amamentavam seus filhos ao seio exclusivamente ate a criança aprender a andar. Uma vez que a criança aprendia a andar, o alimentava ? se do alimento dos adultos e continuava ao seio por mais dois anos de idade.

A amamentação é a forma de nutrição que mais efetivamente contribui para o crescimento e desenvolvimento da criança devido às suas vantagens de ordem nutricional, imunológicas, econômicas, psicológicas e ecológicas (VASCONCELOS, 2006). Após a gestação, a amamentação é a principal alternativa nutricional para a criança, que associa elementos fundamentais da nutrição correta: alimento, saúde e cuidados (LIRA, LIMA; 2006). No Brasil, a prevalência de amamentação aumentou na última década, passando de 49% aos seis meses de idade, na década de 80, para 60% na década de 90. Porém, o incremento nos índices de aleitamento materno não foi homogêneo em todo o país, sofrendo variações significativas de acordo com o local e as características socioeconômicas da população estudada (VOLPINI, MOURA; 2005). Tão importante quanto o aleitamento materno nos primeiros meses de vida é a introdução gradativa dos alimentos complementares (BORELLI; 2004). A introdução dos novos alimentos, ou alimentação complementar, é um processo complexo e as decisões sobre quando, como e porque iniciar está baseadas em fatores biológicos, culturais, sociais e econômicos, sendo um período vulnerável para a ocorrência de deficiências nutricionais, infecções, atraso no desenvolvimento e formação de hábitos alimentares inadequados (PALMA, BATAGLIN; 2004).

O aleitamento materno representa uma categoria híbrida que se constrói entre os domínios da biologia e da sociedade, mediada pela aparelhagem psíquica do ser humano, tratando-se, portanto, de um ato impregnado de ideologias e determinantes que resultam das condições concretas de vida (VIEIRA; 2004).

A OMS/UNICEF in Ministério da Saúde cita os dez passos para o sucesso do aleitamento, declarando que todos os estabelecimentos que oferecem serviços obstétricos e cuidados ao recém ? nascido devem ter:

- Norma escrita sobre aleitamento, que deveria ser rotineira transmitida a toda a equipe de cuidados de saúde;

- O treinar toda a equipe de saúde, capacitando-a para implementar esta norma;

- Informar todas as gestantes sobre as vantagens e o manejo do aleitamento;

- Ajudar as mães a iniciar o aleitamento na 1º hora após o nascimento

- Mostrar as mães como amamentar e como manter a lactação, mesmo se forem separadas de seus filhos;

- Não dar ao RN nenhum outro alimento ou bebida além do leite materno, a não ser que tal procedimento seja indicado pelo médico;

- Praticar o alojamento conjunto - permitir que as mães e bebês permaneçam juntos 24 horas por dia;

- Encorajar o aleitamento sob livre demanda;

- Não dar bicos artificiais ou chupetas a crianças amamentadas ao seio;

- Encorajar o estabelecimento de grupos de apoio ao aleitamento para onde as mães deverão ser encaminhadas, por ocasião da alta hospitalar ou ambulatorial.

O processo de aleitamento materno não é somente um ato biológico. O ato de amamentar perpassa pela tomada de decisão da mulher, da vontade, do desejo de amamentar, momento este que envolve a revisão de seus vários papéis sociais, coloca em movimento a integralidade de ser mulher, estabelecendo modificações importantes em seu viver (CONSOLIN, SANSON; 1999).

Portanto, o aleitamento materno é essencial para a sobrevivência de crianças pobres em países pouco desenvolvidos, que estão em risco constante de adoecerem devido a complexa associação de má nutrição, falta de saneamento, infecções frequentes e falta de alimentação nutritiva (BARROS et al; 1994).

Além disto, as crenças e os tabus influenciam no aleitamento materno, principalmente, no tocante à alimentação materna durante a lactação. A cultura, a crença e os tabus têm influenciando de forma crucial a sua prática. Tendo em vista a importância do aleitamento materno para a criança e a mulher, entendemos que o sucesso da promoção da amamentação, também está relacionado a programas educativos de diversas naturezas e vimos com clareza, à valorização do hábito cultural ligado a esta prática (ICHISATO, SHIMO; 2001).A preocupação com a oferta de leite humano na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e o fato de existirem situações onde, por algum motivo, o RN não pode receber o leite de sua própria mãe, remetem a questão para o funcionamento adequado e implementação do Banco de Leite Humano nas maternidades.

Por enxergar essa triste realidade, a equipe da UTI Neonatal do Hospital Santa Helena sempre buscou prestar uma assistência mais humanizada voltada para o atendimento das necessidades físicas, psíquicas e sociais de sua clientela que é basicamente constituída de pessoas humildes e dependentes do Sistema Único de Saúde (SUS). A equipe da UTI Neonatal durante toda trajetória, não mediram e não medem esforços no que se refere à implantação de projetos sociais voltados ao público carente, c ontando com a colaboração de profissionais de diversas áreas conseguiu implantar vários projetos sociais voltados para a melhoria da qualidade de vida das pessoas e para a continuidade no acompanhamento das crianças que passaram por internação nas duas UTIs. Sem dúvida alguma, várias foram as frustrações, os desgastes físicos e psíquicos, porém, mesmo assim continuam acreditando na possibilidade de um Sistema Único de Saúde mais justo, mais igualitário e próximo da realidade das pessoas. Consideramos que humanizar a assistência significa agregar, à eficiência técnica e científica, valores éticos, além de respeito e solidariedade ao ser humano. O planejamento da assistência deve sempre valorizar a vida humana e a cidadania, considerando, assim, as circunstâncias sociais, étnicas, educacionais e psíquicas que envolvem cada indivíduo. Deve ser pautada no contato humano, de forma acolhedora e sem juízo de valores e contemplar a integralidade do ser humano.

A Política Nacional de Humanização do Ministério da Saúde entende por humanização a valorização dos diferentes sujeitos implicados no processo de produção de saúde e enfatiza a autonomia e o protagonismo desses sujeitos, a co-responsabilidade entre eles, o estabelecimento de vínculos solidários e a participação coletiva no processo de gestão. Pressupõe mudanças no modelo de atenção e, portanto, no modelo de gestão. Assim, essa tarefa nos convoca a todos: gestores, trabalhadores e usuários.